
O Brasil se despediu neste domingo (24) de um dos maiores nomes do humor gráfico nacional. Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, conhecido como Jaguar, faleceu aos 93 anos no Rio de Janeiro. Internado no hospital Copa D’or devido a uma infecção respiratória, seu quadro evoluiu com complicações renais, levando-o aos cuidados paliativos nos últimos dias. A informação foi confirmada por familiares à TV Globo.
O velório de Jaguar foi realizado na capela celestial do crematório Memorial do Carmo, na zona norte do Rio, das 12h às 15h, seguido pela cremação. Nascido em 29 de fevereiro de 1932, no Rio de Janeiro, Jaguar viveu parte da infância e adolescência entre Juiz de Fora (MG) e Santos (SP). Iniciou sua carreira artística aos 20 anos, desenhando para a revista Manchete, enquanto ainda trabalhava no Banco do Brasil — instituição que só deixaria nos anos 1970.
Jaguar foi um dos fundadores do icônico jornal O Pasquim, lançado em 1969, que se destacou por seu conteúdo ácido e crítico à ditadura militar. Um dos personagens mais emblemáticos criados por ele foi o ratinho Sig, mascote do jornal, inspirado em Sigmund Freud. Durante o regime militar, Jaguar foi preso após publicar uma charge satírica que alterava o quadro “Independência ou Morte”, substituindo o grito histórico por “Eu quero é mocotó”. “Eu fiz esse negócio e foi um deus-nos-acuda, rapaz! Eu tava viajando, na minha casa de pescador lá em Arraial do Cabo. Quando voltei, me aconselharam. ‘Se esconda Jaguar, tá todo mundo preso!’”, contou em entrevista à ABI em 2009.
Ao longo da carreira, Jaguar colaborou com nomes como Ziraldo, Millôr Fernandes e Henfil, além de contribuir para revistas como Senhor, Civilização Brasileira, Pif-Paf e jornais como A Última Hora, Tribuna da Imprensa e O Dia. Entre suas obras literárias, destacam-se “Átila, Você é Bárbaro” (1968) e “Ipanema, Se Não Me Falha a Memória” (2000). Também foi responsável por animações das vinhetas “Plim Plim” da TV Globo, que se tornaram ícones da televisão brasileira.
A irreverência de Jaguar se manifestava em personagens como Gastão, o Vomitador, criado em 1972 durante uma entrevista com o diretor Carlos Manga, e Bóris, o Homem-Tronco, que se locomovia em um carrinho quadrado. Sua obra influenciou gerações de cartunistas e permanece como referência no humor gráfico nacional. Em 2014, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Jaguar arrancou gargalhadas ao relembrar uma briga entre Millôr Fernandes e Chico Buarque: “O Millôr jogou tudo que tinha na mesa em cima do Chico, errou e acertou no garçom”, contou, divertindo o público.
A morte de Jaguar gerou comoção entre colegas e admiradores. Chico Caruso declarou: “Ele era o melhor cartunista brasileiro, meu amigo querido e é uma perda irreparável para o humor e para o Brasil”. Renato Aroeira também prestou homenagem: “Jaguar foi mestre, professor, amigo, inspiração, gênio, um dos maiores chargistas que eu já vi no planeta como um todo. Incansável, trabalhou até o último minuto, sempre absolutamente crítico, sempre feroz, sempre amado por gerações e gerações seguidas de cartunistas”. Miguel Paiva resumiu sua admiração: “Eu queria desenhar como ele, mas nunca consegui”. Já André Dahmer destacou: “Uma pessoa muito espirituosa, com um trabalho imenso, muito inteligente. Uma perda irreparável para todos nós. O cartum brasileiro, charge. Deixou livros memoráveis de charge e cartum, tipo ‘O Átila’. Ele escreveu um livro muito interessante chamado ‘Confesso que Bebi’, que é uma resenha de vários botecos do Rio de Janeiro. Uma contribuição muito grande de cultura brasileira. Era um cara de uma personalidade enorme e muito bonita”.
Com sua partida, Jaguar deixa um legado inestimável para a cultura brasileira. Seu traço afiado, humor provocador e personagens memoráveis continuam vivos na memória de quem acompanhou sua trajetória e nas páginas que marcaram a resistência criativa em tempos difíceis.

























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